quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Verdade do Centro de Ti

Já é desde há muito que tenho vindo a escrever para alguém, propositada e especificamente para uma única pessoa. O «Lumi» está aberto ao público, qualquer pessoa pode ler este género de diário, muito mais alargado do que há dez anos.
Conheci uma mulher (ou Menina, por carinho) há relativamente pouco tempo, menos de um ano, mas não começámos a falar logo de início. Não faço a mais pequena ideia se lerá os meus textos ou, se os lê, se gosta deles. Não sei mesmo.
Há cinco anos atrás, estava eu a publicar o primeiro livro, mas tornou-se irrelevante, face ao que se seguiu, um pouco mais de um ano depois. Chama-se Viagem ao Centro de Ti, um título ambivalente. Isto porque se trata de uma viagem ao centro de mim, que me identifico como «Ti» entre os mais próximos, da minha essência, no fundo, mas também de uma viagem ao centro de um antigo amor. É inspirada na demanda de Dante Alighieri pela sua Beatriz, em A Divina Comédia. Enfim, acabei por escrevê-lo porque estava apenas a querer recuperar um amor muito forte e significativo de quem acreditei ser a mulher da minha vida. É claro que se provou o contrário. Fiquei satisfeito, por outro lado, quando alguém me disse mais tarde que este poema lírico, narrado, contribuíra para a união de duas pessoas que não conhecia de lado nenhum, que ainda hoje não conheço, mas que se casaram, é verdade. Senti-me feliz por isso, por ter inspirado alguém através do amor.
Eu próprio tenho vindo a sentir-me inspirado, desde que conheci esta Menina, como já não acontecia há tantos anos. Talvez tivesse tido medo de arriscar, quem sabe. Medo de me magoar, outra vez. Mas a verdade é que vi no meu Amor, na minha Bonequinha, o coração mais puro. Os seus olhos, repletos de ternura, mostram também sofrimento. Sou actor, fui treinado para observar. Percebo que há sofrimento no seu interior, mais ou menos activo, não sei confirmar, isso não sei, mas vejo tristeza reflectida nas suas íris, como se procurasse há muito o seu Príncipe, porque ela é uma Princesa, e precisa que cuidem de si.
Desde a nossa primeira conversa que tenho estado a tentar convidá-la para sairmos. O seu aniversário foi há cerca de mês e meio, e eu comprei-lhe um presente. Não é um presente qualquer, mas não quero revelar a sua exactidão, porque só ela deve poder vê-lo. Afianço apenas que é gigante, glamoroso, e que é seu, tal como queria, se ainda se recordar do que é.
Voltei a convidá-la ontem, mas não leu ainda o convite, a perguntar se podíamos sair amanhã, sexta-feira, para poder entregar-lho, para poder dar-lhe um abraço também, e um beijinho, não há mais nada que queira pedir-lhe.
É possível ter saudades de quem se conhece de coração por completo, ainda que se conheça pouco de ter conversado antes. Só prova que esta pessoa a quem amamos é a nossa verdade mais pura, a nossa magia mais encantadora.
Provavelmente não lerás o que aqui está, por isso falo sem enrubescer tanto quanto aconteceria se estivéssemos juntos a conversar, aqui e agora. Quero dizer, no entanto, que tenho saudades tuas, e que quero ouvir a tua voz carinhosa, encontrar o meu olhar com o teu, meigo, em tons de avelã, e reconfortar-te, dizer-te que vais ser feliz. Se chorares, enxugar-te-ei as lágrimas com as pontas dos meus polegares, e mostrar-te-ei as estrelas na cúpula celeste, são todas tuas, pede quantas quiseres.
Estarei onde desejares, aguardando que chames por mim, e logo seremos juntos.
O termo é outro, mas não quero que tenhas medo das minhas palavras, por isso direi desta vez... adoro-te.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Vincerò!


Nessun Dorma
Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti
(Os Três Tenores)
com a
Orquestra Filarmónica de Los Angeles
Los Angeles, Califórnia, 1994

Há Dias Assim

Há dias assim, que é como quem diz, de merda. Podia ter evitado o vernáculo, mas não fui capaz. Estou demasiado desiludido comigo próprio. Esta noite dormi pouco, muito pouco. Já me deitei tarde, o meu sono teve intermitências, e depois acordei cedo. Não conseguia de todo tentar ficar a dormir mais tempo. Quis ficar bem acordado, com boa cara, por isso bebi o habitual espresso diário e meti-me no duche. Fiz-me cheiroso por completo, queria causar a melhor impressão possível. Não sabia se conseguiria vê-la imediatamente após a minha chegada, por isso levei a minha Moleskine e o tablet, para me distrair no entretanto.
Não me recordava de onde tinha deixado o carro desde domingo, dei uma pequena volta a pé ao quarteirão, até que enfim consegui encontrá-lo. Sendo aquele tipo cheio de sorte de que me gabei sempre, tenho um carro estacionado em segunda fila, justo atrás do meu. Achei, no entanto, que não valia a pena perder energia irritando-me com esta questão, por isso não fiquei a buzinar continuamente para chamar à atenção. Simplesmente apertei o volante duas vezes, muito brevemente, e o chico-esperto, proprietário da viatura, lá acabou por chegar atrás, mas ainda vinha com expressão de incomodado. Temos pena, atrás dos outros não é lugar para estacionar.
Quando enfim segui em frente, senti o presente de aniversário a baloiçar na espaçosa bagageira. Já tem semanas de atraso, mas não havia maneira de entregá-lo no próprio dia. E também não era hoje que o faria, o embrulho é grande e dá nas vistas pelo género de presente que é. Pensei, contudo, que era suave ao toque e não havia de se magoar muito até à entrega, que não sei quando acontecerá.
Não havia trânsito, por isso avancei calmamente até ao cais onde repousa o submarino pintado com uma cor bastante característica. O coração palpitava-me à medida que me movia rumo ao seu interior, passado o portão principal. O intervalo é às 11h00, mas hoje as coisas não estavam ainda a funcionar como deviam. Foi isso que me escapou e o que deitou tudo a perder, claro. Uma sessão qualquer logo de manhã, uma visita cultural pela zona à tarde. Não é que aquele particular concelho seja rico em cultura, mas não quero descriminar.
O que é que acontece, então? Vejo toda e qualquer pessoa, tanto recrutas como veteranos, uns que já conheço há muito tempo, outros que jamais vislumbrei em toda a minha vida, mas a ela... nem pensar. É claro que tenho outro propósito, como seja ir à fonte de conhecimento adquirir uns títulos para o meu ensaio sobre o actor, mas essa parte é perfeitamente secundária. Tal como em Janeiro de 2014, exactamente um mês depois de ter visitado Londres, mas sem neve, apenas uma imensa escuridão às 16h00, devido à latitude. Apaixono-me à primeira vista por uma miúda britânica que vejo no metro. Os jornais gratuitos, distribuídos na rede de transportes, fazem até pouco da situação. Têm uma secção designada Rush Hour Tube Crush, para que quem não foi capaz de falar com a pessoa por quem se interessou possa descrevê-la, descrever-se e perguntar se podem voltar a encontrar-se e tomar um copo. Na altura, tentei de tudo. Aderi a um grupo chamado Meet People in London, no Facebook, descrevendo num post aquela rapariga e dizendo que não estava capaz de esquecê-la. Pedi ajuda a imensa gente, que me sugeriu também que tentasse anunciar gratuitamente em sites de "perdidos e achados", mas isso era demasiado rebuscado. Além do mais, para um romântico incontrolável como eu, não havia nada melhor do que regressar, e o mais depressa possível. Não ando a nadar em dinheiro, é um facto, pelo contrário, estou a investi-lo no Doutoramento, mas senti que devia também investir na minha felicidade pessoal, ao invés de exclusivamente académica.
Assim, justamente, um mês depois regresso ao Reino Unido e fico mais tempo. Em casa desculpo-me dizendo que vou a uma entrevista de trabalho, mas a razão principal não é essa, obviamente. Tenho todos os detalhes perfeitamente memorizados na minha cabeça. Ela entrou na composição em Trafalgar Square, ou Charing Cross, que dá no mesmo, como eu, e saiu em Baker Street, como também eu saí para o transbordo com a Hammersmith & City, sendo que vínhamos ambos na Bakerloo. Tudo isto aconteceu entre as 16h30 e as 17h00. Mas meia hora era uma margem muito curta. O que é que faço? Saio bem vestido, perfumado, dou uma volta pela National Gallery, depois pela Portrait Gallery, enfim, vários sítios onde passar o tempo e aprender alguma coisa. Um pouco antes da margem, desço para a estação. Não tomo logo o comboio, não ando de trás para a frente, mas sento-me no banco da estação, encarando a linha, hipnotizando a mim mesmo tentando focar-me no mais ínfimo pormenor que me permita identificar aquela pessoa. O problema é que, a meio da estação, a composição passava ainda muito rápido antes de parar e abrir as portas. E claro que, à medida que a hora de ponta se aproxima, tudo se torna excessivamente complexo de controlar, são centenas de pessoas de uma só vez. Tem de vir um membro do pessoal, inclusivamente, com o único propósito de falar através de um dispositivo que envia a sua voz para os altifalantes para avisar que o comboio está a chegar ou de partida. Usa uma raquete que levanta dentro do ângulo de visão do maquinista no retrovisor afixado à frente, indicando que toda a gente está empacotada e pronta para seguir viagem.
Num dos últimos dias, mais para o final da semana, inverto a estratégia e vou à hora de abertura do metro para a estação. Nem sou capaz de recuperar o sono. Levo uma folha de papel à frente a dizer "Free Hugs!", é a mais pura verdade, só para disfarçar. A minha busca continua, mas sem sucesso. Tenho de inevitavelmente desistir.
Também hoje desisti, mas existe uma diferença em larga escala. Quanto à miúda do metro, jamais soube o seu nome, onde vivia, se estudava ou trabalhava e onde, e é claro, nunca trocámos uma palavra. Ela não me conhecia de lado nenhum. Eventualmente diria que era louco, senão um creep, mas isso são riscos que se correm. Ninguém me impede de executar uma demanda em busca do amor, mesmo que internacional. Os custos não são nada, comparados com os eventuais resultados. Já o disse, sou um romântico incontrolável, faço o que for preciso, se tenho a certeza do amor que me corre nas veias. Relativamente à minha Bonequinha, sei o seu nome, sei de onde vem, sei o que faz, sei onde estuda. Mas há sempre problemas de comunicação. Não tenho o número de telefone dela, não lho pedi, não posso trocar mensagens consigo, perguntando se posso vê-la, e deixar mensagens no Facebook não me serve de nada, não tem sinal para recebê-las.
Ora, se sou capaz de me meter num avião e ficar hospedado quase uma semana útil num hotel para entrar naquilo a que eles chamam wild goose chase, sou perfeitamente capaz de me meter no carro e conduzir cerca de dez minutos até ao cais, quantos dias forem necessários.
O Outono já aí está, de porta fresca entreaberta, e eu tenho um chá para tomar e aquecer-me.
Já chega de perdermos tempo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Sopro

   Peguei no meu bloco de notas, uma simples «Moleskine» de capa preta, e comecei a rabiscar algumas linhas ligeiramente desconexas que acabavam por fazer algum sentido na minha mente, tendo em conta a previsão que eu fazia ao agrupá-las e associando-as a outras linhas que pouco tinham ainda de concreto.
   Foi só com o desenhar do lápis sobre as folhas que fui criando algo de visível, que já começava a ter nexo, embora fosse bastante subtil, como é meu característico quando me ponho a rabiscar sem fazer uma ideia racional daquilo que pretendo que saia.
   Isto porque, decidindo e pensando melhor sobre qual seria o ponto de partida mais apropriado, consegui arranjar um começo. Achei que aquilo que levava a mim próprio querer executar um desenho daqueles, sendo que desenho nem sequer fora nunca o meu forte, seria fazer uma coisa diferente do resto, por muito bom que esse resto já tivesse sido.
   De todas as palavras que escolhera para fazer composições anteriores a esta (sobre a qual tenho vindo, justamente, a compor a descrição), atingiu-me de repente uma qualquer inspiração divina de que estas linhas em questão formariam a palavra perfeita, a supra-sumo de todas as outras, sinónima de todos os temas sobre os quais até então escrevera e que o futuro me garantia que continuaria a escrever.
   Não queria acreditar que entrara, ao longo da experiência obtida na criação destes curtos, mas no entanto fortes trechos, na mais óbvia de compreender, na mais simples e no entanto na mais rica e essencial palavra que poderia ter encontrado em todo aquele tempo.
   Assim, para não esborratar as folhas de papel quando as dobrasse ou quando passasse as costas da mão por cima para remover os detritos da grafite, suspendi propositadamente a continuação da elaboração do desenho que me fascinara naqueles poucos minutos e afiei-a o melhor que pude, de modo a deixá-la sem uma superfície acidental que comprometesse a fina espessura de cada linha que, agrupada com a sucedânea e por diante, viria a formar um desenho perfeito, apesar de eu não ser uma pessoa assim tão qualificada em desenho que pudesse testemunhar a perfeição do mesmo, embora atributos e classificações fúteis não interessassem propriamente para o caso, porque nem sempre é preciso arranjar grandes explicações racionais para procurar esclarecer uma coisa que nem é racional de todo. Até porque não são os olhos nem o cérebro, elementos errados do tribunal plenário das sensações, que verdadeiramente são responsáveis por aquilo que percepcionamos, e isto acontece porque são inseparáveis do julgamento e dos juízos de valor. Percepcionar assim o mundo sob a pressão de uma opinião racional e viciada não é saudável.
   No fundo, interessa ver com o coração. Não é necessário que isso seja fisicamente possível, porque não o é, mas... Será relevante? Seguramente não. Ainda bem que conseguimos fantasiar e filtrar a realidade que nos rodeia, senão... Viver sem sonhar não teria metade da graça que realmente tem.
   Apropriadamente afiado o bico do lápis que rolava entre as pontas do meu polegar e do meu indicador direitos, prossegui naquilo que inicialmente era só uma ideia abstracta, como o são todas, mas aquilo já se tornara concreto demais para pôr de parte e para esquecer o seu valor.
   Foi então que suavemente deslizei, harmoniosamente formando curvas em todas as direcções. As linhas extra que tinham ajudado à formação das linhas essenciais, apaguei-as muito delicadamente com um canto da borracha que propositadamente abrira naquela ocasião, para não correr o risco de, como disse antes, injustamente borrar o papel e torná-lo menos apetecível.
   No final, vislumbrei aquilo que conseguira produzir. Levara ainda menos tempo do que as minhas habituais produções levavam, mas nem por isso deixou de ser, porventura, mais interessante.
   Esse desenho, como previra, formara um nome.
   Um nome, tão simples como respirar.
   Um nome.
   O seu nome.
   Reproduzi a sua sonoridade com a voz para dentro, para que não vacilasse, com a emoção que de repente me atingira.
   Era de noite, já tarde.
   Fiquei a saborear cada letra como chocolate quente de diferentes sabores, até enfim adormecer em paz.

O Encontro (2015) | 4.ª Parte

   Acabávamos de chegar a um dos restaurantes mais luxuosos da cidade, o Wolfgang Puck Bar & Grill, na W. Olympic Blvd. Era uma escolha agradável para qualquer situação, independentemente do seu cariz. Incorporava vários géneros de cozinha de todo o mundo e tinha um aspecto absolutamente fenomenal. Não admira que a Bonequinha tivesse arregalado os olhinhos em espanto. Inquiri-a relativamente ao gosto que tivera quando escolhi o Wolfgang, procurando saber se fora uma boa opção.
   - Estás a brincar? Este sítio é lindo!
   E era, efectivamente. Aguardámos pelo mâitre para nos encaminhar para uma das várias mesas. Optámos pela mesa do canto, não necessariamente mais resguardada, porque havia muitas pessoas próximas de nós, mas não exactamente coladas umas às outras. De todos os modos, podíamos pôr-nos à vontade, ninguém falava Português e, se porventura apanhassem um ou outro vocábulo, com certeza diriam ser Espanhol e poderiam eventualmente tentar perceber sobre que estaríamos a conversar, mas lá para o meio de uma qualquer frase, tornar-se-ia imperceptível, até para os latinos. Com a experiência que temos de Espanha, já se sabe que ninguém se dá ao trabalho de comparar uma língua com a outra e acaba por dizer "perdón, pero no te entiendo".
   O ambiente luminoso da sala encontrava-se reduzido, dependendo essencial-mente da curta projecção da chama de cada uma das velas acesas. De um lado da mesa, um longo e contínuo sofá, mais confortável, para o qual a dirigi. Só não pude executar o cavalheiresco gesto de afastar o assento para deixá-la acomodar-se porque não se tratava naturalmente de uma cadeira, nem tão-pouco era amovível. Compensei essa falha de etiqueta masculina, ainda que não deliberada, auxiliando-a a remover o casaco e a dobrá-lo sobre o banco almofadado, assim como com o ajuste da mesa mais para perto de si, o que me faz recordar neste momento que ela é Pequenina. Talvez por isso me desse mais vontade de agarrá-la como a um ursinho de peluche para dar-lhe beijinhos e fazer-lhe carícias. Sou assim mesmo, um coração mole. "Diz que" não é defeito, é feitio. Nunca tive gosto em deambular pela maldade, falta de tacto, ausência de carinho, défice de ternura. Se esta Bonequinha é quem mais amo na minha vida, merece lá agora que entre num espírito aterrorizante, de ansiedade. Eu próprio não mereço, quanto mais passá-lo à pessoa mais importante da minha vida. Não conseguiria fazê-lo, sequer, ainda que tentasse. Daquele arco-íris que todos nós trazemos no nosso interior, apenas prefiro o negro para a minha forma de vestir. Acho que peças de roupa mais escuras ficam-me bem, mas não é nada de mais, porque esta é praticamente uma verdade absoluta, sendo que é aplicável à maioria das pessoas.
   Depois de analisarmos a carta deixada pelo mâitre, fiquei inclinado para a secção das pizzas. Poder-se-iam perguntar, "mas para quê comer pizza num restaurante tão fino quanto este, quando o que não falta para aí são restaurantes de comida rápida que servem exactamente o mesmo?". Pois bem, servem exactamente o mesmo, se nos orientarmos pela designação. Já a confecção dos pratos entre os referidos lugares mais comuns e esta casa nada tem a ver. Só o empratamento, modo de apresentação, etc. valem o que se paga pelos mesmos, e não fica muito mais caro do que numa cadeia ordinária (no sentido positivo de «habitual», não em tom pejorativo). Perguntei-lhe então o que é que gostaria de degustar.
   - Vejo aqui tanta coisa boa, não tenho bem a certeza do que vou querer... mas podes escolher tu, se não te importares. O que preferires está bom para mim.
   Chamei-lhe Tonta. Bem sabe que não é por mal, mas a intenção mais clara deste... digamos, «adjectivo» teve como seguimento a explicação que lhe dei, ou seja, que aquela noite era dela e que podia fazer como mais lhe apetecesse. Não é que se tratasse de uma noite excepcional no que a esse aspecto diz respeito, pois que todos os dias tinha liberdade de fazer o que bem entendesse, e não era eu que tinha de lha conceder. Já antes o disse, de novo o repito, pode ser a minha Bonequinha, mas não é minha «propriedade». Estamos a falar de uma pessoa, não de um objecto para usar por entretenimento e depois arrumar a um canto, numa prateleira mais alta, coberta de pó, ficando lá esquecido. E isto quando os objectos ainda são arrumados. Há quem não goste de sentir que ainda estão por perto e que podem cair a qualquer momento lá das alturas, quando uma pequena brisa, embalada pela corrente de ar vinda da janela aberta, os empurrar rumo ao chão, cujo estrondo assemelhar-se-á a uma pancada forte sobre a cabeça, relembrando a triste verdade. Mas então será já tarde demais. Já o objecto ter-se-á habituado a não ser desejado, e por isso não quererá voltar a ser usado, só para ir parar ao mesmo solitário local. É um ciclo para o qual ninguém está virado, de todo.
   Acabei então por sugerir o que o paladar me incitara a preferir, uma pizza com Prosciutto di Parma, Basil Pesto, Oven Roasted Tomatoes e Olives. Os últimos dois ingredientes poderiam ter sido citados com a devida tradução, mas alturas há em que momentos de snobismo não são fáceis de conter. Para beber, dois copos de Cabernet Sauvignon, tinto, doce, simplesmente maravilhoso. Agora já podíamos beber ambos, se se tratasse de há uns anos atrás é que ficaria por minha conta comprar a borbulhosa e agradável cevada, mas só para beber em casa. O passaporte não engana, "já dizia o outro". Havia cerveja ali servida também, claro, mas isso podia ficar guardado para outro dia qualquer. Aquilo sobre que conversámos naturalmente só a nós diz respeito, mas posso adiantar que abordámos Arte, na maioria do tempo, mesmo depois de chegar a pizza repousada num suporte sobre uma lamparina, para não arrefecer. Luxos destes não se encontram em todos os lados. No seio do contexto da Arte, Teatro. Era o assunto que mais nos interessava, não só académica, como profissionalmente. Falámos sobre nós, enquanto pessoas, enquanto amigos, enquanto secretos namorados. Secretos, justamente porque a atracção que se gerava entre ambos era evidente, só não via quem não queria.
   Depois de nos satisfazermos ambos, cada um com uma metade simetricamente repartida, tornei a chamar o mâitre para pedir a sobremesa. Disse-lhe que não valia a pena trazer a carta.
   - Come tu, se quiseres, eu já estou cheia, mas obrigada...
   Sorria. Era um sorriso algo envergonhado, devo confessar, mas genuíno, como sempre.
   Tendo aperfeiçoado a minha falta de jeito para trabalhos manuais, a sobre-mesa de surpresa vinha aí. Faltava-lhe a classe de vir colocada sobre uma bandeja, mas tenho perfeita noção de que já seria pedir muito ao pessoal da casa. Todo o complô tem limites, mas os que têm as melhores intenções. Era um embrulho majestoso, com laçarote incluído, no mesmo tom misterioso dos seus cabelos, consoante a intensidade da luz, já se sabe.
   - O que é isto, Ti...?
   Os olhos arregalavam-se-lhe em confusão e surpresa. Respondi, muito sucin-tamente, que era a sobremesa. Vinha era especialmente embalada e precisava de ser aberta. O que a Bonequinha encontraria no seu interior fá-la-ia ascender aos céus, só para trazer estrelas no lugar das íris.



Carta de Beethoven à Sua «Amada Imortal»

6 de Julho, de manhã.
Meu anjo, meu tudo, meu eu. - hoje apenas algumas palavras, e a lápis (com as tuas) - não poderei assegurar-me do meu alojamento aqui até amanhã - que desnecessária perda de tempo - porquê este sofrimento profundo, onde a necessidade toma a palavra - poderá o nosso amor existir senão por sacrifícios, sem que exija tudo.
Podes alterá-lo, não seres completamente minha, não ser completamente teu? Ó Deus, vislumbra a bela Natureza e acalma a tua mente sobre o que tem de ser - o amor exige tudo e totalmente em razão, é assim comigo contigo, e contigo comigo - só que esqueces-te muito facilmente, de que devo viver para mim e para ti também, se estivéssemos unidos inteiramente, não seria para ti tão doloroso, tal como não seria para mim - a minha viagem foi terrível. Não cheguei cá senão às quatro da manhã de ontem. Como havia poucos cavalos, o coche dos correios optou por outro caminho, mas como foi abominável! Fui avisado à última da hora para não viajar de noite; tentaram assustar-me por conta da floresta, mas isso apenas me deixou mais desejoso. - Estava enganado. O coche ficou preso na horrível estrada, uma sem pavimento apropriado, das rurais. Se ambos os cocheiros não tivessem estado comigo, teria ficado retido no caminho. Esterhazi tomou o caminho habitual para aqui e incorreu no mesmo fado com oito cavalos, o dobro dos que eu tinha. - Retirei no entanto algum prazer da situação, como sempre faço quando sou bem-sucedido a ultrapassar dificuldades. - agora rapidamente do interior para o exterior. Provavelmente ver-nos-emos em breve, só que, hoje não posso comunicar-te as observações que fiz ao longo destes poucos dias sobre a minha vida - Se os nossos corações estivessem sempre juntos, tais pensamentos não me ocorreriam. o meu coração está repleto de tanto que tenho a dizer-te - Oh! - Há momentos em que sinto que a língua nada vale - anima-te - permanece como a minha fiel mais-que-tudo, o meu todo, como eu para ti, o resto aos Deuses pertence, o que deve ser para nós e o que está guardado para nós. -
o teu fiel ludwig -
Tradução do Inglês
TiL

domingo, 27 de setembro de 2015

O Encontro (2015) | 3.ª Parte

   - Então, onde é que vamos?
   Respondi apenas que era surpresa, retorquindo posteriormente no remate se-guinte que, se era para proferir com todas as letras o nosso destino, então a surpresa não serviria de nada. Como seria quando chegasse o Natal e tivesse um embrulho em seu nome debaixo do pinheiro sintético? A criança que existe dentro de nós, porque esta nunca nos abandona, jamais, não vale a pena querer ser racional por completo, não é da nossa natureza, há-de sempre pressionar a curiosidade para que saiba de antemão que mistérios e segredos são esses que aqueles que nos amam têm para nós, entrando, se necessário for, em modo de chantagem, mas no bom sentido, com certeza, como seja ameaçar que não há mais beijinhos para ninguém se não dissermos. Mas a verdade é que, se soubermos esperar e se confiarmos no bom gosto do outro, que nos conhece melhor do que ninguém, essas ameaças caem por terra e muitas vezes acabam por se inverter em mais de cem por cento, querendo dizer que o recompensamos com muito mais do que beijinhos. É só permitir que o coração dialogue com a mente e o nosso agradecimento por ele ou ela ter pensado em nós e no nosso melhor será o mais criativo de todos.
   Adivinhando desde logo que da barreira dos meus dentes palavra alguma tres-passaria (subtileza trágica), não mais tornou a insistir. Nem me ameaçou de modo nenhum. Sempre que procurava fazê-lo, acabava a rir-se, olhando-me as íris em busca de algo que lhe desse a entender que eu acreditava, mas a minha resposta era sempre a mesma, tanto que já a citava de cor, como qualquer actriz profissional:
   - Já sei, já sei... andas nisto há muito tempo!
   Se era verdade, para quê negá-lo? Não é que o não fizesse de vez em quando, mas era só para fazer género e vê-la rir-se da minha expressão patética de falsa soberba.
   Por conta dos nervos e do cansaço, os seus olhinhos, no sentido de serem doces, porque em tamanho eram grandes, belíssimos e luzidios, iam-se fechando. Questionei-a, então, procurando saber se tinha sono e se preferia antes ir para casa descansar um pouco. Este é o sentido mais literário da minha pergunta, porque, e em verdade vos digo, sem traições, os termos com que a coloquei foram muito mais pueris, ou seja, se queria "fazer óó". Não me julguem, é ela que me derrete assim, como chocolate num dia quente de Verão. Atirem a primeira pedra ao charco, se nunca antes o enunciaram desta forma.
   - Não, Ti, só estou muito cansada, mas feliz por estares aqui, mesmo muito.
   E encostou-se ao meu ombro, repousando sobre este a sua cabeça. Muitas vezes era apenas capaz de pensar que os seus cabelos só podiam ser mágicos, não só pelo tom variável que assumiam consoante a luminosidade, algo que lhe gabava frequentemente, mas pelo olor perfumado que lhes era tão natural. A minha lisonja constante, relativa aos seus atributos enquanto mulher, pode parecer por vezes cansativa ao olhar, mas não é por mal que o faço, pelo contrário. É porque é a mais pura das verdades, e mal nenhum não existe em dizer à nossa cara-metade o quanto lhe queremos. Enquanto isto, entrelaçou também os dedos da mão direita com os da minha mão esquerda, e deixou-se estar, só com a firmeza necessária para se sentir segura, certa de que jamais permitiria que algum mal lhe acontecesse.
   Os motoristas da Uber são bem mais simpáticos do que os regulares taxistas, e portanto não é de estranhar que eles mesmos iniciem conversa com os passageiros. Percebi pelo retrovisor central, no qual vi o seu olhar reflectido, que era uma pessoa simpática e jovial. Embora não tivesse sido capaz de perceber o conteúdo da minha conversa com a minha Bonequinha, há termos linguísticos, e não necessariamente contidos na fala, que são universais, independentemente da zona do globo. Por isso deixou-se ficar em silêncio, deixando apenas transparecer um sorriso, quase como que cúmplice.
   O trânsito estava ligeiramente caótico. Mesmo circulando em avenidas tão lar-gas quanto aquelas, o espaço não é suficiente para milhões de carros que sobre as mesmas podem rolar em apenas poucas horas. Enquanto passávamos entre o observatório e o famoso letreiro, numa das principais artérias, fui olhando o exterior. Quase que não havia zonas escurecidas, a iluminação proveniente de várias fontes eléctricas não o permitia. Desde a minha primeira visita à cidade, na companhia da minha melhor amiga, cidadã nacional, embora não sendo originária deste estado, que me apaixonara totalmente. Podem até dizer que é snobismo ranhoso, mas a impressão que tenho vindo a construir cada vez mais no meu pensamento é a de que a Europa está a tornar-se demasiado empertigada, e não só com pessoas oriundas de outros continentes, mas também com os próprios europeus. Afinal, de civilizados os habitantes nascidos neste continente têm muito, mas a maior falha acontece no sentido cívico. Não temos o direito de negar asilo a refugiados, se alimentámos a guerra que provocou a sua partida, muito menos com o nosso histórico. Os europeus, enquanto berço civilizacional do Ocidente, não se escusaram de eliminar pelo menos três civilizações americanas, entre outras tribos menores, cuja execução ficou a cargo dos britânicos, a Norte. É claro que Astecas, Maias e Incas, distribuídos pelo Centro e Sul do Novo Mundo, apenas atingiram o estatuto imperial por sacrifício de tribos isoladas, pelo que matar para conquistar não é nada de novo, de todo. Chega a ser pré-histórico, inclusivamente.
   Então porquê apaixonar-me por uma Menina europeia como eu, e não de outro continente? Não são os traços ancestrais, demográficos, étnicos, geográficos, políticos ou religiosos que definem uma pessoa. Funcionam em modo de contributo, sim, mas a pureza contida no coração não é tão superficialmente moldável. É uma impressão que só a natureza pode deixar marcada e inscrita na mais profunda cavidade de cada um. E foi isso principalmente que emitiu o sinal necessário. Não precisámos de conversar extensivamente para incorporar a sua personalidade. Não é ocasional que, quando alguém nos elogia, sintamos que estão a pintar um quadro demasiado bonito, com recurso ao nosso arco-íris interior como fonte de tinta, crendo que não somos tão coloridos quanto isso para desenharem um Sol bem brilhante e sorridente num dos cantos superiores, junto à aresta da moldura, mas não é essa falta de confiança que vai ditar a percepção que temos da personalidade dos outros. Não, ninguém é perfeito, todos temos defeitos. É isso que nos dá vida, que alimenta uma relação. Alguém com aspectos contrários aos nossos é quem falta para completar-nos, nós que vivemos com uma metade só e estamos condenados a procurar o ente querido, separado de nós originalmente pelo poder de Zeus, mas também pelo medo, não fossem os humanos virar-se contra ele e restantes olímpicos para tomarem o lugar que é seu por direito. O negro também é uma cor, mas os defeitos que nos são característicos não passam necessariamente pelas trevas. Pode nem se tratar sequer de um cinzento carregado, mas talvez de um tom mais esbatido. E sempre que um de nós se sinta azul, o outro estará lá para complementar a paleta.
   Estando o caminho um pouco mais livre, vamos avançando, até que chegamos enfim ao destino. O motorista desliza o indicador no seu telefone, concluindo o percurso e cessando a cobrança pela viagem. Bastante sensível, aguarda que acorde a minha Bonequinha, ao invés de escorraçar-nos dali para fora. Levanto com carinho e gentileza o seu queixo e encosto a minha fronte à sua. Chamo-a pelo diminutivo e digo-lhe que chegámos. Abandonamos o veículo e os seus olhinhos prendem-se à magia daquele lugar. Puxa-me do braço para alcançar uma das minhas maçãs-do-rosto e aí deposita um beijo profundo, onde tenho a certeza de que o batom terá ficado marcado. É quase como se o cansaço lhe tivesse passado de súbito. Há vida em si uma vez mais.