sexta-feira, 13 de junho de 2008

Aurora

Existe algo nos tempos que me diz
Que a ventura mordazmente aguardada
Ainda está p'ra além deste petiz
Conjunto de vontade malograda.

Caberá, pois, àquele homem demente
Encontrar a obscura solução
E fazer por curar toda esta gente
De uma tão incurável maldição.

Temos de ultrapassar os maus caminhos,
Caminhando por outros novos rumos,
Navegando por onde não mentimos
E enxergamos para lá destes fumos.

A nossa inspiração em tal mestria
Compele-nos a voar à coroa,
Desviando-nos do ontem deste dia,
Post scriptum: parabéns, caro Pessoa.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

- Espaço.

Sê-me.
Eu já estive ligado a muita gente... às vezes de forma inútil e fugaz, algumas intensamente, mas na sua totalidade, de uma forma terminal.
Sê-me.
Estou farto de passar pelas mesmas fases: depois do interesse despertado e da pura caçada, vem a euforia, de seguida a anomia/abulia, mais tarde o repúdio, o desdém. No fim, o ódio momentâneo, no mínimo a raiva dura e escaldante, de quem solta impropérios a quem já lançou cânticos de exaltação!

Quero os espaços preenchidos! Muito me tenho gabado do bem que a solidão me faz. Lá dizia eu, a quem me perguntava: "Estou bem, vivo-me muito mais!" Hipocrisia é uma palavra muito forte, mas eu sempre disse isso antes de fechar os olhos para não ver a verdade a fitar-me, especada, à espera que eu lhe retribuisse o olhar e acordasse.
Sê-me.
Anseio por algo completo, total, cheio, uno, perfeito, utópico... sei lá o que quero eu, o que sei é que quero! E na vontade jaz a obra, na vontade sonha o espírito, na vontade morre a passividade, na vontade nasce o herói! E eu quero nascer! Herói, vilão, quero nascer novamente! Não quero renascer, não isso não!
Sê-me.
Porque já renasci uma mão cheia de vezes, e nunca acordei para nada (nem ninguém) melhor! Talvez eu fosse completando uns espaços aqui e ali, no meio do meu ego inchado. Mas algo melhor? Não!

Por isso não quero renascer, quero nascer outra vez! Desejo, com ameaça de birra infantil, acordar...estender a minha mão nos lençóis, buscando-te (como faço todas as manhãs) e, por fim... Encontrar-te, na tua pura imagem feminina, esbelta, esguia, torneada e esculpida pelas mãos mais sábias e euroditas.
Portanto, Sê-me!
Entra em mim, invade o meu corpo, deixa-me integrar-me no teu, tomá-lo como meu, e tomai-o como teu, porque dele já nada quero. Do meu, que há muito já foi ultrapassado pelo ideal do teu. Do teu, o perfeito, que tanto anseio e pelo qual tanto espero.
E espero.
Sê-me, sendo tudo, sente-me, sentindo tudo.
É utópico, dirás tu, da tua alta e lúcida torre. E razão terás.
Mas na minha cabeça... Mais... Na minha alma, nada há, nada morre, nada nasce, senão o que tu ditas.
Por favor, Sê-me e dita o nosso Fado.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Autopsicanálise

Tenho idade suficiente para saber que não tenho a idade suficiente para começar com esta frase: "Tenho a idade suficiente para saber..."
Porque eu tenho é a idade para não saber, não me saber, inclusivé!
E faço juz à adolescência, não sabendo. Não sabendo porque estou aqui, para que fui feito, se há ou não há um sentido na... Essas perguntas todas que enlouquecem uns e entediam outros.
Mas tenho vindo a crescer. O processo, em mim, tem-se revelado de acordo com a regra: Concepção, parto, começar a respirar, abrir os olhos, reconhecer os progenitores, começar a andar, a falar, estabelecer as primeiras relações com pessoas fora do círculo familiar, ir para a escola, começar o processo de aprendizagem, errar...em todos os campos da vida... estar à beira do colapso, sofrer, voltar a sofrer, desistir... E desistir de desistir, porque desistir é difícil, amar o passado, chocar com a vida, estagnar... Crescer.
Até chegar a agora. O momento em que analisei um dos meus medos de uma forma tão imparcial e objectiva, que parecia um comentário sobre um outro alguém.
Medo de chegar ao ponto em que a evolução pára. Chegar a um beco, a uma situação em que o melhor dos melhores foi atingido, e perceber que para trás é pior e não existe para a frente...
Esta epifania chegou até mim através do seguinte raciocínio: Inscrevi-me num concurso de escrita, perfeitamente banal e leviano, uma atitude reveladora de insegurança e narcisismo. E desde então (desde o ano passado) eu sinto falta da escrita, ou seja, desde então que não dançamos, ela e eu.
Então qual é a explicação para o facto de eu, de um momento para o outro, cessar de escrever (tirando um ou outro eclipse de inspiração)? Medo... A explicação é o medo que eu sinto, talvez inconscientemente... O medo que sinto, mesmo não o querendo admitir... De não poder melhorar mais. E, se calhar, não escrevo aguardando o resultado do tal concurso entediante... Na espectativa de o perder... Uma vez que ganhá-lo seria fazer-me ver que já sou o melhor que posso ser.
Perfeito não, nunca perfeito! Que nojo de termo, livra de eu alguma vez ser perfeito!
Mas ser o melhor que eu consigo. Aperceber-me do limite das minhas capacidades, neste caso, mentais ou artísticas ou literárias ou egocêntricas, como as quiserem rotular.
E por isso, aguardo tranquilo e inerte pela notícia da minha vergonhosa derrota, visto que falhar por completo... Fracassar redondamente faria-me sentir triste e frustrado, talvez com vontade de desistir, rogando pragas a esta minha amante! Mas levaria-me à conclusão que eu ainda tenho muito que progredir, muito que trabalhar, para um dia, ganhar o tal concursozinho.

A vida faz-nos perceber coisas de formas tão estranhas...

E assim percebo que aplico este medo a esta minha faceta, e a todas as outras... Tenho medo de chegar a um momento que me faça sentir perto da perfeição... A minha reacção será sempre afastar-me dele, com medo de alcançar o máximo, cedo, e passar o resto da minha vida nesse máximo... Durante tanto tempo (e mesmo um dia com esse máximo estável é tempo demais)... e durante tanto tempo que esse máximo se torne num maximozinho... e num mais-ou-menos... e num bonzito... e num medíocre...
Até que morro nesse estado de desgraça, sem honra ou orgulho na vida que levei... Sem um óbulo para entregar ao barqueiro, sabendo assim que me aguarda o vaguear incessante...
Desespero(éro).

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Com Uma Pena, Numa Agenda

Tão bem que me sinto, deitado em mim. Sossegado todo eu.
Senti-o! Senti o palpitar leve do coração; a ondulação, quase estática; a vontade do ser de se libertar.
A dor do estar confinado, não em quatro paredes, mas pior: estar confinado a dois braços... A 20 dedos, a não sei quantos ossos, a uns quantos órgãos.
Que tristeza! Tão grande fera! Tão nobre e justa besta, gigante toda ela, está limitada a metros e centímetros.
E lá estava a mão do outro, que era a minha e a dela, a mão do mundo, da vida, a gritar-lhe: Solta-te! Acorda - com umas pequenas carícias.
E percebi: Eu gosto! Eu adoro! Eu amo todos os que se entregam de tal forma que deixam de ser indivíduos, unos e incompletos.
Porque somos sempre nós, num. Porque "gosto de ti" qual criancinha...
Liberaste-me, liberei-te.
Amámo-nos por lânguidos e ausentes momentos. A dois... A doze!
Porque cada fio do meu cabelo e cada pedacinho do meu invólucro, sai, agora e sempre, com um pequeno pedaço do vento, do mar, dos corações.

E ganhei rodas debaixo dos pés e decidi voar...


Escrito após um momento de alter-ego, um momento de total ausência de consciência e completa presença em mim mesmo, um lugar raro e belo. Não alterei... para quê? Até os erros que haverá possuem um sentimento associado.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Novo Capítulo

Ouve-se o ranger do papel numa velha máquina de escrever. grrrrrrraaaaarrrrkkkkk plim. Ponho uma folha nova. shruuut. E finalmente começo a teclar repetidamente nos diversos caracteres. Clak clak...clak clak clak.
Só consigo lembrar-me... Não tiro da cabeça... Não consigo expelir pelos dedos tudo o que...

Vou usar uma metáfora para me facilitar o trabalho: A minha gata fugiu... Acho que saltou por uma janela que deixei, acidentalmente, aberta. Não sei... O que eu sei foi que quando cheguei a casa, ela lá não estava. Ela não estava naquele seu cantinho que eu tinha preparado para ela, todo aconchegado por almofadas gigantes, boas de arranhar. Com uns quantos postes forrados para ela fazer exercício.
Ela não estava. Foi-se...
Sinto a cabeça pesada, sinto o corpo pesado... Sinto o peito mais pequeno, como se tivesse encolhido na máquina de lavar e agora já não me servisse...
Já não digo coisa com coisa...
Isto dói mas por mais incrível que pareça, não tenho razão nenhuma para estar assim. Porque... As coisas que tu me deste são muito maiores do que esta dor. E elas, tu não as tiraste de mim. Fizeste esse favor.
Muito pelo contrário, só provaste que és mesmo inédita. Que foste inédita na minha vida, e serás.
Obrigado, mas eu vou mudar de folha agora, e como título vai estar escrito: "Novo Capítulo." E vou fazer de tudo para poder olhar para o amanhã com um sorriso.
Porque eu sou assim. Porque eu tenho o mesmo sorriso, estampado na minha cara, desde que existo. Porque eu olho para as minhas fotos de criança e tenho o mesmo sorriso, que rasga a minha cara, duma ponta a outra, e que me deixa estas rugas que já começam a assentar no meu rosto. E eu dou-lhes as boas-vindas, porque são sinal de que vivo, e de que vivo intensamente. São sinal de que não viro a cara ao sentir. Que não viro a cara às estaladas que a vida tem guardadas para mim. E apanho essa estalada, e respondo-lhe com um sorriso, rasgado de orelha a orelha, um pouco mais inclinado para a esquerda.
Mas neste novo capítulo, tu continuas a ter um papel, como terás em todos os capítulos que a minha vida me permitir escrevinhar. Até ao fim.
Tu marcaste-me, sempre pela positiva. E mesmo agora que a cortina se fechou para nós, eu guardo este sorriso infantil. E dou-to de presente.

Não te sintas mal. Recebe-o, porque tu deste-me mais. Por tudo, eu agradeço-te.

Ah, e...até amanhã =)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Novo Capítulo (a ser desenvolvido)

Ponto final. Muda de folha. Duas linhas em branco. Terceira linha centrada, a Bold numa letra Maior.

Novo Capítulo
Foi Bom.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

"Para Sempre"

Sento-me aqui no meu quarto meio vazio, pela mudança de mobília. Ao meu lado apenas está um roupeiro embutido na parede e um colchão, já gasto dos anos, que me viu crescer e ser feliz. Apenas um colchão jogado no chão de madeira escura, onde eu sonho já há 2 noites. Noto agora as verdadeiras dimensões do meu quarto, sem aquela cama de dois andares, cheia de armários, que me ocupava a maioria desta divisão.
O telemóvel vibra e eu tremo para que sejas tu! Estremeço ao pensar que essa tua linda alma pensou em mim, nem que seja por uns meros minutos para dictalografar uma simples mensagem de boa noite, destinada a mim.
Ultimamente tem sido sempre assim, agarrado ao telefone móvel, invenção do século, como um viciado em heroína ou outras drogas! Mas a minha droga é pura, a minha droga é limpa, a minha droga é viva! A minha droga é óptima para a saúde, quer física quer mental! A minha droga és tu, tu que eu gosto, tu que eu adoro, tu que eu…
Entro em euforia… Disseste que me querias… Pois eu quero-te acima de tudo, quero-te de um modo assustador, de um modo avassalador, arrebatador. O meu desejo por ti ruge dentro de mim mais alto do que os trovões que rugem lá fora no frio… Lá fora no frio é onde tenho medo de estar… Quero ficar aqui dentro contigo, bem juntinho de ti, bem agarradinho ao teu colo, sentindo a tua mão a passar pelos meus cabelos… Bem aqui, onde estou ao teu alcance de fora a me roubares uns quantos beijos ardentes, alguns fugazes, que se dissipam no meio de carícias e mimos. Mas outros, presentes, o seu sabor não sai durante dias…O calor que eles nos transmitem, prova-me que nos tornamos num só aquando destes beijos. Estes beijos apaxonados…
Mas um enorme par de passos nos separa, e é apenas um sonho, que eu julgo bem real. Agora tem sido sempre assim… tando que padeço por te querer que até já me inundaste os sonhos! E eles agora estão mais reais, mais carnais, mais dados ao toque. No entanto, os olhos também comem, e tu devoras-me com os teus. Lanças-me olhares carregados de desejo, de alto a baixo, provocando-me, atiçando-me cada vez mais até chegar a um ponto inevitável, a um ponto em que a minha razão já não me sustem mais, e a única coisa que me impedia de correr para ti e jogar-te na cama caiu por terra!
Quero-te para mim! Sempre me tive como uma pessoa altruísta, e continuo a sê-lo, mas tu és tão preciosa que eu não aguento ver um olhar alheio dirigido a ti… Saber de uma indirecta… Ficar a conhecer um pobre coitado, encantado pelo teu canto de sereia, mas que não teve tanta sorte como eu!
Que sorte! Eu tenho-te! Costumam-me dizer que só damos valor às coisas quando as perdemos… Que tretas! Eu dou-te tanto mas tanto valor, mesmo para não te perder! Dou-te o valor que mereces, e mesmo assim fica aquém do que aquele que te queria dar! Mas neste mundo não existe espaço suficiente!
Queria dar-te o mundo, mas este rasteja pelo chão, podre e doentio. Queria dar-te algo superior, algo mais puro, algo mais único. Dou-te a minha alma, numa bandeja dourada. Não que ela seja muito pura ou única, e não que a bandeja seja muito importante; ela está um pouco gasta já, usada demais, entrego-ta com esperanças de que a ponhas boa, como ela era; ela apenas serve para enfeitar o presente, um acto de ironia poética.
Dou-me a ti, tu que eu gosto, tu que eu adoro, tu que eu…Amo!
Já não suo quando digo esta palavra…Já não tremo cá dentro quando a pronuncio. Sabes porquê? Porque desta vez não a estou a usar em vão, não a estou a desvalorizar, não a estou a atirá-la ao acaso. Desta vez ela é que é algo pequena, ficando um pouco “curta nas mangas” para o meu sentimento!

Para ti *

(Peço desculpa pela repetição mas é o que eu sinto predominantemente [e de que maneira] neste momento.)